O aprendiz do protetor dos pinheirais

O olhar perante a tela quase em branco
acompanha o vai e vem do lápis preto
que materializa mais uma exuberante araucária,
compondo versos de majestosos pinheirais
do Planalto Norte.

O pequeno aprendiz da arte olha atento,
enquanto o amado Amadeu agora pincela para lá e para cá
um pequeno córrego, espelhando o céu aberto e claro
que se perde entre os gigantes seculares,
povoados por pássaros de intenso azul celeste.

O pequeno Beto ao lado do seu amado pai,
fita os tons de verde escuro formarem quase mãos,
os verdes claros materializarem os quase pés,
enquanto o pincel lentamente entalha os troncos eretos,
em direção ao firmamento.

Quanta harmonia entoava daquelas mãos já enrugadas!
Quanto fascínio aquelas telas coloridas causavam!
O santuário ornado por um sonhador lúcido,
que pelas lentes capturava os sonhos das divisas do Sul,
das terras do Contestado.

O pequeno Beto, sem perceber, encharcava-se de lições
com o nobre protetor dos pinheirais,
com o seu amado Amadeu, protetor e pai,
testemunhando ali a tela branca tornar-se viva,
tornar-se bela.

A magia da música dos sons que não se ouvem,
com a poesia dos versos expressos somente em cores,
a batida forte do coração de um poeta que canta e pinta,
fortalece a essência das lições paulatinamente entoadas
por um pai artista.

Mas o tempo passa para todos,
mortais que somos nesta réstia de vida,
perpetuam, certamente, aqueles que cantam,
encantam, emocionam,
inspiram...

O tripé agora montado no improvisado ateliê,
sustenta as pinceladas não do pai, mas agora do filho,
cujas mãos são guarnecidas e guiadas pela memória da criança,
que agora homem, honram a história daquele que veio antes,
mas já partiu.

Pai e filho separados pelo último sopro que a todos um dia chega,
agora se unem em um eco ilimitado de traços e pinceladas em óleo.
No godê da vida, o amado filho torna-se o pai, o amado pai torna-se o filho,
cuja arte perpetuam, enquanto restar o brilho do olhar
para a convidativa tela em branco.
Imagem: https://baudefragmentos.blogspot.com/2015/12/amadeu-bona-90-anos-em-esboco.html

Luiz Antonio Wiltner
Professor, poeta, mestre em Comunicação, graduado em Letras, bacharel em Jornalismo, formado em Psicanálise Clínica. Subtenente da PMSC.

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